sábado, 29 de novembro de 2014

Troco madrugadas de sextas-feiras com desconhecidas bêbadas por vadiar sábados inteiros ao teu lado, vendo filme velho na TV e te ouvir falar mal da tua mãe. Ignoro o meu passado de conquistas por te conquistar dia após dia. Mudo meu futebol de domingo por exposições interessantes ou fotografias despojadas. Troco meu enigmatismo clássico por teu desespero qualquer. Troco geladeiras gulosas por tuas porções verdes e sucos estranhos.
Troco beijos sem nome por tentar colocar meu sobrenome em seus-nossos filhos. Prefiro dormir de conchinha a ter que sair à francesa antes do sol nascer. Quero cartões de bom dia e mensagens indecentes – todas com você como remetente. Troco perfumes e roupas caras por tua cara amassada de ressaca pela manhã. Quero ser capitão do teu barco e ser teu mar, também.
Troco músicas altas por teus esporros no último volume. Troco amizades momentâneas por teus conselhos maternos. Esqueço noites com alucinógenos baratos e mulheres fáceis por fumar baseado na beira da praia ao teu lado.
Troco o silêncio do meu quarto em dias frios por teus gritos irritantes reclamando que não tem roupa para ir ao cinema comigo. Troco qualquer certeza de um encontro casual para tentar buscar a eternidade ao teu lado.

Hugo Rodrigues.

domingo, 23 de novembro de 2014

Ontem eu te deixei toda marcada.
Naquela cama apertada que sugere você por cima, sua acomodação preferida… Cama que absolve nossos defeitos e enaltece nossa vontade de nos deslindarmos cada vez mais. Por um devaneio do acaso fico a mercê das suas vontades e lhe dou toda soberania para me fazer de gato e sapato. Dizemos palavras turgidas da mais gostosa devassidão, retiradas de um dicionário íntimo escrito por duas pessoas que esqueceram com qual parte do corpo se deve pensar. Realmente, arrancar as palavras mais libertinas da sua boca é um privilégio inestimável.
Acabamos e eu te deixei cheia de marcas. Algumas visíveis, outras não…
Ah, como eu gosto desse sexo com premissa de sorriso matinal. Sexo com promessa de felicidade estendida no varal para toda vizinhança admirar o que eles não sabem como é faz tempo. Hoje só eu te conheço, mas todos sabem de onde vem esse seu sorriso. E a sua calcinha do avesso.
Frederico Elboni.
Eu quis te escrever uma coisa bonita porque é tão bonito o que você faz comigo, que eu tenho vontade de te escrever todas palavras bonitas do mundo. Arco-íris, samba, mar, abraço, cafuné, café, apego. Pra te dizer coisa bonita e leve e simples, eu coloquei um João Gilberto baixinho, só com um violão cantando uma bossa. Eu queria que você lesse isso assim, com essa sensação de pôr-do-sol, de tato de pescoço com o toque de lábios, de dedo enroscado em cabelo e colo de frente pro mar. Eu te queria uma sensação bonita.
É tanto silêncio e é tanto barulho, que eu queria te dizer uma coisa bonita que calasse a tolice e te fizesse acreditar que sempre vale a pena. Queria (sem rima e sem verso, porque rima e verso são poesia e poesia é você) te dizer com palavras bonitas que não é mentira, não é exagero, não é nada. Simplesmente é.
Eu queria te dizer uma coisa tão bonita, que desse pra sentir os meus braços nas tuas costas e a escola de samba que eu tenho no peito contra o teu. Que trouxesse a sensação de conforto que só um abraço par traz. Eu queria te dizer uma coisa mais bonita que o silêncio do desconhecido próximo, mesmo sabendo que coisa mais bonita não pode haver. Queria te dizer uma coisa tão bonita quanto o suspiro que enche o pulmão de ar e transforma quilômetros em arrepios.
Queria te dizer que meu peito que era marina virou barco e que minha direção é o céu. Eu quis te mandar – por pensamento, por carta, por bytes, por notas musicais, por toque, por cheiro, por carinho – um pedaço do meu nublado. Afinal de contas, a solidão das tuas nuvens gris e do meu algodão doce, que eu só quis te dizer uma coisa bonita pra que você percebesse que aqui dentro não chove. Faz Bahia.

Marina Melz.
Imagine uma parede; e imagine que nessa parede está encostada a mulher que vai roçar na sua barba te fazendo pensar com ares de esquecimento: ‘como era antes dela?’
Nessa parede branca com leves rachaduras está encostada e sorridente a mulher que topará viajar contigo pra Veneza ou pra Diadema. De jatinho ou de Chevette.
Alta, a parede é recheada com rabiscos de outros casais. Iniciais e corações estão lado a lado com as rachaduras; algo como o amor na prática. Lá está ela: a mulher que fará dos seus sonhos um lugar quase palpável. Lugar esse que vocês terão umas plantinhas pra cuidar, muitos beijos pra praticar e, talvez, até uma criança com os olhos de um e a boca do outro.
Imagine um lugar que você conseguiu convencê-la que se tratava de um ponto; que lá passava o ônibus em direção a faculdade dela. Mentira das grandes que atrasa a ida, mas adianta a vinda de uma boca que… meu deus do céu.
Insisto: Desenhe na mente uma parede que não é ponto de ônibus, mas é branca e rachada; e que nela está encostada a mulher que vai te desabafar coisas sobre a vida. Que não vai se importar de ouvir um ‘Vai dar tudo certo, minha linda’ ao pé do ouvido. Claro, acompanhado de abraço forte. Desses que pressionam as costelas e impressionam todos aqueles que pensavam ou diziam: ‘Vocês não vão dar certo’.
Quer viver essa história? Agarre-a nessa parede. De olhos fechados e bocas fervendo ambos escrevem os capítulos que a língua descobre. Não é grosseria quando você aprende a traduzir olhos que frequentemente desviam dos seus; mãos que não param de gesticular. Beijo não se pede. Roube-a num assalto passional. Silencie a timidez dela com desejo e mão na nuca.
Saiba que a única parede que impede isso acontecer é a sua hesitação. Você está lidando com uma mulher que não aceita homem que pede beijo. Ela é dessas que sabe que beijo é calor, não um favor. Dessas que – contra a parede – é mulher, não menina. Sabe como você nivela essa pegada? Sendo homem.

Fábio Chap.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Posso ser tua puta, mas não vou embora pela manhã.
Posso ser tua cachorra, mas não vou te lamber o saco em todos os momentos.
Posso ser tua piranha, mas que isso envolva sinceridade.
Pode dar na minha cara, mas não perca o respeito por mim além disso.
Pode gozar na minha boca, mas não me diga sentimentos cuspidos.
Pode me enforcar com força, mas não me prenda em teus braços.
Pode me chamar de tua, mas não me pense como uma propriedade qualquer.
Da porta pra dentro, somos só eu e você.
Abro minhas pernas o máximo possível. Grito. Suo. Gemo.
Ordeno. E ordeno ser ordenada.
Sou sua puta. Sua amante. Sua qualquer coisa.
Ali, sou tudo o que nunca fui.
Mete com força.
Goza na minha boca.
Bate na minha cara.
Me faz gozar, não me ligue amanhã e a-gente-se-vê-por-aí. Ou me ligue também.
Dentro da minha alma carrego tantos amores, e desamores, que se eu for contar histórias até minhas palavras mais doces terão um gosto de devassidão.
Hugo Rodrigues.
No dia em que você se foi às pressas e olhando para o chão – como se tivesse medo de flagrar a tristeza em meu olhar, e de, por pena de mim, desistir de ir –, eu menti; fingi desejar o oposto do que sempre desejei – e que ainda desejo – a você. Depois de ter jogado pela janela a foto que tiramos em Buenos Aires e a almofada da Amélie Poulain que comprei para que, em casa, você se sentisse em casa, eu gritei: “Espero que você se foda!”.
Perdoe-me, por favor. Juro que não foi do coração para fora.
Sabe o que eu realmente espero?
Espero que você, em outro ombro, encontre o conforto necessário para dormir – a ponto de sonhar – até ser acordada por uma aeromoça que surgirá para avisar que o avião está prestes a pousar.
Espero que você, dentro de outros braços, sinta-se imune a tudo – até mesmo às balas de fuzil e à vontade de desistir da vida.
Espero que você, nas próximas segundas-feiras, continue a receber mensagens assim: “Amor, obrigado pelo final de semana maravilhoso!”.
Espero que você, em suas próximas viagens, esteja acompanhada por alguém que, ao invés de chiliques, rirá dos quartos de hotel que, até mesmo às baratas e aos ratos, parecem péssimas escolhas. Alguém que, mesmo sobre os colchões mais duros, fará com que suas pernas terminem moles.
Espero que você, quando ameaçar ir ao cinema só de camiseta, tenha alguém por perto para dizer: “Melhor levar uma blusa!”. Alguém que, mesmo depois do seu “Não precisa!”, fará uma proposta irrecusável: “Se você levar a blusa, amor, eu levarei você para tomar aquele sorvete cuja casquinha vem cheia de chocolate. Que tal?”. Alguém que, mesmo quando não conseguir vencer a sua teimosia quase patológica, levará uma blusa extra, sabendo que você, quando o frio chegar, precisará.
Espero que você, quando chegar do trabalho com fome e puta pela ausência de qualquer coisa gostosa – e dentro da validade – em sua geladeira, encontre – ao lado do seu anticoncepcional – uma caixa contendo um Donuts com cobertura de Negresco acompanhado pelo seguinte bilhete: “Jantar dos campeões!”.
Espero que você encontre alguém capaz de encontrar as tarraxas dos seus brincos, restaurantes com várias opções de peixe e a paz necessária para enfrentar os murros que vida, certamente, ainda lhe dará.
Espero que você, no próximo verão, esteja ao lado de alguém que não pensará duas vezes antes fugir para um lugar bem frio, sem pernilongos e com abundância de comidas calóricas.
Espero que você encontre alguém que, no exato instante em que você chegar, colocará o celular no bolso. Alguém que sabe a diferença entre “estar perto apenas fisicamente” e “estar perto de corpo, alma e coração”.
Espero que você encontre alguém que, na próxima Festa Junina, quando perceber que a rolha da espingarda nunca derrubará as caixinhas de fósforo, trapaceará e utilizará pedras para conseguir aquele ursão gigante que você tanto vai querer.
Sabe o que eu realmente espero?
Espero que você me perdoe pelo “Espero que você se foda!” e que encontre alguém capaz de fazer com que esta vida inegavelmente cheia de pesos, pareça leve. E fácil de ser levada.
Ricardo Coiro.
Fique um pouco mais. Na geladeira tem aquele suco que você gosta, aquele queijo polenguinho que você ama colocar no pão e temos pizza de ontem também. Fique. Deve chover daqui a pouco, pelo menos eu ouvi dizer. Mas se não, deve estar quente demais. Sei lá. Fica. Eu ligo o ar condicionado ou fico te abanando, se você quiser. Fique um pouco mais. Ou muito mais. Tem algum maço de cigarros teu perdido em meu armário. Tem aquele short meu que você gosta de dormir. E eu comprei DVDs legais esse mês. Fica pra gente ver junto.
Fica, vai. Eu lavo a louça e posso ler pra você, também. Posso fazer pão de queijo ou pizza de mentirinha. Eu arrumei a cama pra gente. Ou podemos ficar aqui neste sofá cor de vinho. Fique. Lá fora, está perigoso demais, eu vi no noticiário. Há trombadinhas por toda a cidade que assaltam em ônibus ou esquinas. E os taxistas também são maus e podem tentar te assediar ou algo assim.
Fica aqui comigo. Eu estou doente. Olha? Estou começando a ficar com febre, tosse ou câncer, sei lá. Minhas mãos estão tremendo e eu sinto que meu coração está acelerado demais esta noite. Fica para cuidar de mim? Fica, vai. Tua mãe pode esperar. Tua ex pode esperar. Tuas amigas que dão em cima de você, também, podem esperar. Até as teus amigos que não gostam de mim podem esperar. Fica, vai. Manda mensagem ou liga para todos eles e diz que foi por aí.
Fica. Tem biscoitos de chocolate na cozinha. Tem livros legais na prateleira. Tem jogo de tabuleiro, baralho ou coisa assim. Tem coisa de beber, de fumar. Fica, droga. Tem seriados legais no quarenta e quatro. Eu prometo não te machucar fazendo cócegas. Prometo acarinhar o lóbulo da tua orelha e te fazer massagens também. Ou te colocar no meu peito e te fazer carinho na nuca até você dormir. A gente pode transar, se você quiser. A gente pode falar mal dos outros ou da gente mesmo. A gente pode ficar em silêncio, também.
Você realmente quer ir? Tudo bem. Pode ir. Mas me deixe sua boca. Teus braços. Tua voz. Tuas pernas. Teu peito. Ou melhor, vai não. Fica aí, que você é meu pedaço de luz. Você é o todo do tudo que preciso.

Hugo Rodriguez.
Hoje podias vir aqui em casa. Se deixar levar por uma noite só nossa, repleta de beijos de borrar contornos e conversas ao pé do ouvido. Repleta também de bem-querer e olhar risonho. Aqui, juntos, vamos dar um beijo que nunca aconteceu, justamente para sempre acontecer.
Na minha casa as paredes são convidativas e a cama vira vírgula perto da exclamação que fazemos em cima da mesinha da sala. Entre nós arquitetamos redemoinhos de lençóis que desviam e brincam de acobertar amores de tom simples. Admito, amo brincar de amar e, ao mesmo tempo, te comer todinha. Mescla que traz à tona mimo e safadeza num beijo de uma nota só.
De cômodo em cômodo contamos a nossa história para os moveis enciumados que ali nos observam. Nos pegamos de jeito, assumimos nossos defeitos e vamos de carona no eco do teu gemido azaleia. Não desvia o olhar, me olha fundo e, fundo, saiba que não será só o olhar. Não prometo mundos, nem fundos, prometo sorrisos e orgasmos. Todos múltiplos. Prometo também beijos que pedem mudez. Pedem carinho e safadeza, atenção e destreza, simplicidade e falta de memória.
Falta de memória para esquecer quem és, quem sou, e enaltecer o fato de que, ali, só existem duas pessoas simples e comuns que desejam trocar um pouco de alma. Desnuda o pensar e não premedita minhas opiniões. Não fique com receio de ser quem és. Rebola, olha, pede tapa e beija como se não houvesse amanhã. E quando o amanhã chegar não se esqueça que cada viradinha de olho foi arrancada de ti com o maior carinho do mundo.
Sentimentos se ampliam na divisória dos momentos. São chaves que fecham e corações que abrem. São gaiolas-palavras que protegem a saudade e colorem dizendo como ficas linda ao meu lado.
E assim, que não deixemos que o orgasmo seja a morte do nosso desejo.

Frederico Elboni.