sexta-feira, 3 de abril de 2015

Se uma árvore cai na floresta, mas ninguém ouve, existe barulho?

Ficou emburrada o dia inteiro. Lembrava de ter apertado o tal do F5 pelos menos umas cinquenta vezes antes de sair pra almoçar. E nada de aparecer o nome dela. Será que ele tinha mudado de ideia de um tempo pra cá ou era só pra fazer charminho? Já tinha roído as unhas das mãos inteiras e não aguentava mais de ansiedade. Maldita hora em que ela deixou tudo por conta dele. “Eu troco”, ele disse. Só que o único relacionamento sério que existia ali era o dela com a desconfiança.

Ela queria viver aquele amor de Instagram. Superexposto. Aberto ao público conhecido e desconhecido. Queria ser o alvo das stalkers que o achassem bonitinho. Queria mostrar pra todo mundo as viagens a dois e os presentes que dariam um pro outro nos aniversários. Esperava que a mãe dele dissesse que acertara com ela dessa vez. Queria ser reconhecida, adicionada e interrogada amigavelmente pelos melhores amigos dele. Ela queria que as amigas viessem comemorar a atualização do status junto com ela no chat ou por telefone. Mas ele não mudava nada. E ela sofria na iminência de que ele não gostasse tanto dela assim.

Tinha uma neurose maior que 140 caracteres. Ele podia ser do tipo que não gosta de expor as coisas e preferia deixar entre eles e alguns amigos próximos. Era do tipo que preferia uma união no civil e nada de festa, pensou ela. Ou então era um canalha que não queria afastar as futuras presas. Não queria que o peso de um relacionamento sério destruísse as suas possibilidades de novos interesses românticos e sexuais. A essa hora, por exemplo, ele deveria estar com outra que não saberia de nada. Conferiu no Foursquare. O status do Facebook era a nova aliança de compromisso do século XXI pra ela. Conferiu mais uma vez pra ver se o último check-in dele tinha sido em algum lugar suspeito.

Não se aguentou e ligou para a amiga psicóloga. Recomendou que essa se acalmasse. Não tinha necessidade de querer mostrar pra todo mundo que estava namorando. Esse controle faria mal para o relacionamento e ela já era visto como uma controladora de plantão. Se o cara soubesse que ela era assim, certamente cairia fora. Mas ela tinha certeza de que não assumir uma relação era sinal de que se gosta menos. De que falta algo. De que alguma coisa não existe ali. É como se ela não pudesse viver plenamente o relacionamento se o namorado não tivesse um código de barras virtual que o identificasse como dela.  Porque ela pensava para além dos logins e senhas: admitir a relação na internet era uma das provas de amor mais fortes da atualidade. Afirmou que tinha lido isso em alguma revista e se despediu da amiga.

Voltou do almoço e continuou com aflição. Ele não tinha mudado nada ainda. O telefone tocou, mas ela resolveu ignorar todas as ligações dele até que ele a assumisse. Passou o dia inteiro assim no trabalho. Ao chegar no encontro mais tarde, passou por ele e se sentou do outro lado da mesa. “Não é nada, obrigada”. Ele pensou na alternativa mais rápida: ela não estava gorda, nem de TPM, nem tinha cortado o cabelo e hoje não era nenhuma data especial. Perguntou o que era. Sentiu o smartphone vibrar e pegou pra conferir o que era. Uma inbox dela com uma pergunta meio estranha: se uma árvore cai na floresta, mas ninguém ouve, existe barulho?


Daniel Oliveira.

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