sexta-feira, 26 de junho de 2015

367 days ago

"Encontrei a sua foto e joguei fora na mesma hora, sem pensar. Pensei. Busquei a foto no lixo, dobrei e guardei na gaveta da bagunça. Não achei seguro. Peguei a foto e coloquei junto com os cachecóis, pois eu nunca uso cachecol - apesar da minha mãe insistir em compra-lós - ali era o melhor lugar. Me deu frio. Lembrei dos cachecóis e da foto. Enrolei a foto no meio de dois cachecóis e joguei no fundo do armário. Desisti. Retirei a foto do armário e sentei no sofá. Fiquei olhando a foto por alguns instantes e coloquei no bolso. Já que eu não vou esquecer mesmo, vou guardar e ver se aprendo alguma coisa."

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Entre na minha vida, só não repare a bagunça

Uma vez eu disse que amava e no outro dia eu não queria mais ver a cara. E eu nunca me orgulhei disso, mas foi ali que entendi a bagunça que sou. Ou que eu estava. Por muito tempo me escondi atrás de frases fortes que compartilhavam por aí sobre as vantagens de ser incontrolável. Eu me via nas desculpas de que “sou assim mesmo, esse é meu jeito” como se fosse ruim um dia mudar; querer mudar. Eu mudei e ainda bem que as coisas passam.
Houve uma época em que eu não perguntava o nome das bocas que eu beijava. Eu só queria me distrair. – “Me vê mais uma dose de acaso, por favor!”, eu pedia pra vida. Eu não me arrependo de nada. Por algum motivo eu precisava passar por essas coisas. E aliás, este é outro clichê dos que se julgam melhores que outros sobre o que é viver, aqueles que dizem “eu preciso experimentar tudo o que posso antes de ficar mais velho e não poder mais”. Ora, que desculpa falida pra fazer coisas que não gostaria só pelo prazer de dizer que fez. Eu fui assim, fiz tanto assim.
Pisei em corações como se eu me vingasse das vezes que pisaram no meu. Travava uma guerra contra a minha própria felicidade, pois antes de querer ser feliz eu precisava ser inconsequente e desligar na cara de alguém algumas vezes – tipo como fizeram comigo -, eu precisava dar algumas ignoradas, dar algumas visualizadas nas mensagens – tipo como fizeram comigo.
Eu precisava descontar em quem contava comigo.
Pelo menos parte dessa vida já passou. Eu estou com vontade de colocar as coisas no lugar. Quero me rever, cansei de me perder, hoje eu quero me encontrar. E eu sei que sozinho eu não vou conseguir chegar muito longe; sei que o meu sorriso fica mais bonito se eu tiver a quem mostrar – mas aprendi que nunca deixarei de sorrir pela falta de alguém. É que chega uma hora que precisamos admitir que uma companhia vai fazer bem para os próximos dias. Eu estou com saudade de falar no diminutivo e colocar apelidos particulares, sabe? Na verdade, eu não vejo a hora de ganhar alguns quilos comendo besteiras aos fins de semana vendo TV.
Eu quero o prazer de uma noite com amor, não o amor de uma noite com prazer.
Hoje eu sou uma completa bagunça. Não aquela bagunça da moda que os refrões resumem em algo do tipo “hoje quero uma coisa, amanhã vou querer outra, eu sou assim mesmo, esse é meu jeito. Se não quiser a fila anda”. Não essa bagunça. Sou uma bagunça com vontade de ser organizada. Quero reencontrar em mim as coisas que mais gosto e entendi que sozinho eu não consigo ir muito longe.
Estou empolgado. Me sinto mais leve ao assumir que como também sou fraco. Estou com sede de aprender e com vontade de ser contrariado ao ouvir opiniões que não sejam só as minhas. Não quero mais ostentar que a minha palavra é a última. Já quis um dia, hoje não mais.
Pode chegar. Eu nem sei quem é você ainda, mas pode chegar.
Chegue para me mostrar como eu precisava de você.
Entre na minha vida, só não repare a bagunça.

Me ajude a organizar.
Márcio Rodrigues.

Ainda é você

E se eu disser que ainda são seus os meus domingos, os meus brindes, as minhas lingeries novas? Que ainda é sua a minha cama, a minha casa, os meus beijos matinais? E se eu te disser que você – só você – ainda pode entrar e pegar qualquer livro na estante sem que eu me aborreça?
E se eu te disser que nenhuma noitada vale um filme do teu lado? E que eu me deixo amar, me faço templo do prazer e, embora não me arrependa, eu gostaria do seu cheiro depois?
Quando a vida arranca alguém da gente – como me arrancou de você e vice-versa – anuncia-se um luto desesperado, agressivo, quase desumano. Ele vai passando como se nos aplicassem uma injeção calmante, e dando espaço a uma dor parcelada, que se arrasta e arrasta a gente junto.
E agora o que eu tenho aqui é uma saudade calma, melancólica, vagarosa, que vai me rasgando aos pouquinhos como que por prazer. Não tem choro desesperado – porque, afinal, não é isso a merda da maturidade? – só tem um vazio estranho do que não foi, do que a gente pensou que fosse, do que a gente merecia que fosse. Uma saudade lenta, quase uma cócega, que me afaga quase todas as vezes em que eu entro nesse quarto.
Isso não é sobre finais, ou sobre começos, ou sobre amores mal-resolvidos ou sobre a porra da vida adulta.  Isso é sobre saudade. Essa coisa fria e cruel que nos acalanta e nos apunhala quase ao mesmo tempo. É sobre querer a tua voz ecoando macia na casa da minha mãe porque você precisa da nossa cama, sobre o seu jeito apaixonante de fazer qualquer coisa nessa vida.
Isso é sobre o dia em que viajamos com sono depois de uma noitada e eu passei o caminho inteiro de contando da minha infância estranha só pra você não dormir ao volante. É sobre as canções que a gente aprendeu juntos, sobre as piadas que a gente se conta com os olhos, as noites em que a gente se abraçava e se curava de qualquer mal que tivesse alcançado nosso dia.
É sobre os seus olhos miúdos, é sobre o vinho que a gente não terminou, os filmes que a gente não viu, as festas que a gente faltou. Isso é sobre você, como tantas vezes foi. É que por mais que eu já tenha aberto a porta pra tantos outros, ainda dói. Ainda é você.

Nathalí Macedo.