quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ainda é você

E se eu disser que ainda são seus os meus domingos, os meus brindes, as minhas lingeries novas? Que ainda é sua a minha cama, a minha casa, os meus beijos matinais? E se eu te disser que você – só você – ainda pode entrar e pegar qualquer livro na estante sem que eu me aborreça?
E se eu te disser que nenhuma noitada vale um filme do teu lado? E que eu me deixo amar, me faço templo do prazer e, embora não me arrependa, eu gostaria do seu cheiro depois?
Quando a vida arranca alguém da gente – como me arrancou de você e vice-versa – anuncia-se um luto desesperado, agressivo, quase desumano. Ele vai passando como se nos aplicassem uma injeção calmante, e dando espaço a uma dor parcelada, que se arrasta e arrasta a gente junto.
E agora o que eu tenho aqui é uma saudade calma, melancólica, vagarosa, que vai me rasgando aos pouquinhos como que por prazer. Não tem choro desesperado – porque, afinal, não é isso a merda da maturidade? – só tem um vazio estranho do que não foi, do que a gente pensou que fosse, do que a gente merecia que fosse. Uma saudade lenta, quase uma cócega, que me afaga quase todas as vezes em que eu entro nesse quarto.
Isso não é sobre finais, ou sobre começos, ou sobre amores mal-resolvidos ou sobre a porra da vida adulta.  Isso é sobre saudade. Essa coisa fria e cruel que nos acalanta e nos apunhala quase ao mesmo tempo. É sobre querer a tua voz ecoando macia na casa da minha mãe porque você precisa da nossa cama, sobre o seu jeito apaixonante de fazer qualquer coisa nessa vida.
Isso é sobre o dia em que viajamos com sono depois de uma noitada e eu passei o caminho inteiro de contando da minha infância estranha só pra você não dormir ao volante. É sobre as canções que a gente aprendeu juntos, sobre as piadas que a gente se conta com os olhos, as noites em que a gente se abraçava e se curava de qualquer mal que tivesse alcançado nosso dia.
É sobre os seus olhos miúdos, é sobre o vinho que a gente não terminou, os filmes que a gente não viu, as festas que a gente faltou. Isso é sobre você, como tantas vezes foi. É que por mais que eu já tenha aberto a porta pra tantos outros, ainda dói. Ainda é você.

Nathalí Macedo.

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